segunda-feira, 27 de julho de 2026

tempo de vida de uma borboleta

coleciono borboletas mortas
porque elas borboleteiam vivas pela casa
atravessam de janela à porta
de porta às frestas
transportando as cores do jardim

até que descansam da sua breve existência
caindo nos cantos empoeirados

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Veleiro Grande

tava dormindo em sono profundo quando acordei com 
eeeeeeee veleiro grande, cuidado com a Pedra de Itacolomi

o boi tava na capela do Rio São João
na noite escura ouvia bem a voz do cantador 
até mesmo a percussão chegava suave, amplificada 
faltava 15 pra 5h
foi um pouco antes do despertador 
e um pouco depois da mensagem de Ubiratã: chegando na igreja de São João

tomar café pra encontrar o boi em Ribamar
escutando toadas da varanda

logo depois de Maracanã, veio Maioba
e no caminho entendi porque dava de escutar tão bem de casa 

eram os carros de som troando 
essas estruturas ambulantes de propagação de toadas

7h o Sol já brilhava na basílica azul celeste
enquanto brincantes se reabasteciam com mingau e café das vendedoras da igreja
cerveja, conhaque e tudo mais que era preciso pra passar pela avenida

demora matar a sede de boi


caboclos de fita dançam na procissão de virados
e eu que olho através de uma câmera
gingo desviando
movo-me junto 
sinto-me parte

quando dentre toda aquela gente absorta 
nas batidas das matracas
alguém me olha de volta

frontalidade

disparo
é um verbo violento demais 
para o que seria uma aproximação

tiro a máscara maquínica
para olhar diretamente

para me transportar pro vermelho, amarelo, verde das fitas
que dançam varrendo, lavando, levando 

seu olhar também baixa
como maré
para adentrar no âmago da entrega



Performar para as câmeras não é nenhuma novidade na cultura popular. Cada personagem já se habituou que, por onde passar, lá estarão o público munido de celulares, além dos/as fotográfos/as "profissionais", que com câmeras mais robustas  dividem a cena com a brincadeira. Também já se viram nos registros, se identificando - ou não - com eles. Por vezes, pedem uma imagem sua, posando estáticos enquanto o boi gira e gira. São sensíveis aos que vêm prestigiar, que fotos com o povo. Nós, fotógrafes, temos que estar à serviço do Boi e não sugá-los em imagens. 




sábado, 11 de julho de 2026

lava boi

lá vai boi
lá vá
vai lá boi
onde só tu vais

Sol na moleira 
de quem tá virado
e atravessa a ilha
de um canto pro outro lado
pra brincar em frente aos marcos
e às marcas 
das capelas da estrada
rumo a Ribamar

uma brincada só pra quem chegou lá
Rio São João, Pindaí

vai mais bem ali
um bico projetado até a maré da Baía de São José

lava boi
pra Divindade de São João


sábado, 13 de junho de 2026

mastro do Boi

Bumba Boi se sustenta em seus muitos ritos

levanta o mastro
puxas as cordas
equilíbrio conjunto

finca na terra
queima rojão

com seu estampido lembra
que sem devoção não se faz São João




domingo, 7 de junho de 2026

terça-feira, 5 de maio de 2026

trepadeiras

elas se espalham por toda parte
junto com a chuva

agarram-se a toda e qualquer solidez
ainda que frágil

aliam-se sem duvidar da integridade de nada
porque antes de tudo
aspiram subir

com sua maleabilidade gratuita
dominam sorrateiras

verdes vestes trepadeiras

segunda-feira, 20 de abril de 2026

depois da chuva
o grande Sol se apequena
no interior de uma gota suspensa

domingo, 8 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

teia

a tessitura vital não é transparente

mostra-se na luz e na água que nela se acomoda
no movimento do vento que a move e dá lhe sentido
no encontro inesperado dos caminhos pouco percorridos

esbarrar-se com a teia é um convite

com ela aderir-se
sem querer, destruí-la
pela desatenção à ínfima criatura
que nos convoca à edificante mesmice

quinta-feira, 5 de junho de 2025

ia

biodiversidade vira uma imagem
gerada por IA
ia ser outra coisa
que não natureza
uma placa nos alerta

pixelada paisagem

nas telas
quais imagens imaginar

quais

desejo
 
sem que se perceba
engano

antes de ser vista por muitas imagens

antecipação

quem olha primeiro dentro do mato
leva vantagem

devora quem tem estômago
devorado é quem se abandona

nas rubras têmporas do tempo
pixelada paisagem


sumiço

aquele brinquedo velho
que ainda há pouco tempo era vivo
voltou a ser inerte
ser
transição

irei te informar dos itens que sumirão

antes do dia
que brincaremos ambas
por todas as direções

desapareceremos

roupa velha

nem percebi o apreço que tinha
por aquela roupa velha
presa demais à convenção

domingo, 25 de maio de 2025

corolário

no desembrulhar do querer
altivo encontro marcado 

à outiva
noite esconde 
o caminho sem volta

a leveza de apaixonar-se 
pelo o que ainda não se viu

não há pistas de onde foi deixado
de lado

ou se caiu 
ou se animicamente se escondeu

se guardado em gavetas 
empoeiradas pelo o que veio sem avisar

busca no habilidoso arremessar de sapatos
em fios de alta tensão

em toda sorte 
de brincadeiras 
sem muita noção

um flerte flecha projetada 
na direção do outro
 
prospectada
rumo ao desejo mais íntimo






terça-feira, 20 de maio de 2025

Pacha

vejo a varanda
tu não estás
vejo na lembrança
vazio restante
aperto constante
no meu peito enlutado

terra come teu corpo neste instante

língua que assinalava
músculos que corriam
olhos que confirmavam
comunicação do espírito

que se foi no último hálito
mandíbula totalmente aberta
depois de completamente travada

lá se foi teu espírito
na tua última pulsação
que senti se despedindo 
da minha mão que apoiava 
o teu peito debilitado

queria uma confirmação
tive com a parada
estou tendo nos dias que passam
como canção arrastada

que toca na caixa 
com o vazio dos cantos da casa
que deságua no córrego ao lado

onde banhaste pela última vez
repousando teu corpo murcho 
na lama no fundo depositada
das últimas águas 
do teu verão chuvoso

quinta-feira, 24 de abril de 2025

a incerteza desfaz expectativas
como papel da carta longamente escrita
jogada na água corrente
desfaz mole as letras pequenas
carregada de sentidos densos
sentimentos extensos 
cada pedacinho escorre em direção perdida

sem que ninguém a visse
a carta chegou a destinatários 
completamente selada pelos musgos da beira

e as folhas lama decompostas do fundo
cheiro de peixe em cada pedaço

domingo, 25 de agosto de 2024

te deixo dormir

te deixo dormir um sono bom
até mais tarde, quantas vezes eu
tantas vezes eu
agora te deixo dormir até mais tarde
aproveito o Sol nascer à vontade
ao som de sons de galos, madrugares
acordar como se fosse fim de tarde
sensação estranha sem alarde
amanhece anoitece
desconexão por toda parte
ares turvos, já olhaste
nos roubaram nosso azul
em troca de migalhas
películas de asfalto 
fracasso progresso
promessas vulgares
tudo em alarde por toda parte
e te vejo dormir num sono bom

segunda-feira, 29 de julho de 2024

chama sorridente

chama sorridente
queimou por tantos dias
e noites

deixa queimar

pavio afogou-se na cera da última vez

incendiar-se
autocombustão
pavio longo
labaredas sorridentes
curto pavio
escrita com lápis desapontados 
pavios afogados
irradiação ri
cera chorosa
gargalhadas de salamandras
convites à auto-observação
no meio do furacão

no meio do furacão
há o coração do céu
em torno do qual toda criação gira
sorridente




sábado, 6 de julho de 2024

respeitar os sinais

senti-me completamente sem chão
quando não me lembrei dos sonhos das noites anteriores
ainda que me perseguissem 
com vago sabor de mensagens 
escritas com letras que não existem
por punhos não alfabetizados

mesmo sem pretensão de decifrar 
aguardo suas advertências 
advindas dos rincões da alma
fazendo-se perceber por tiras de expectativas
que balançam ao vento da calma
nas fronhas, na cama
nas conversas emotivas do amanhecer

converso com quem escreve a trama
e lhe digo: te aguardo chegar esta noite 


sábado, 1 de junho de 2024

de compor

abraçar o estranhamento com a ternura e a dúvida se entrelaçando
 
pegadas da luz
manchas nas lentes
brotos das estações
prospecções catastróficas

o mar cobrirá toda essa areia

outra vez?

nosso futuro banhado em sal viajante
e água de chuva

resíduos de protetor solar



segunda-feira, 6 de maio de 2024

Anuns

secam suas penas azuladas ao Sol
disputam galhos verdes trêmulos
fazem ninhos no Ariri a cada estação sua
jogam sem apego seus ninhos velhos fora
fazem novos ninhos com gravetos secos
comunicam-se com sons indecifráveis aos não xamãs
comem bichinhos, voam rasante, divertem-se em bando
são mansos com cara de bravos
são eles que nos recepcionaram aqui
anuns


quinta-feira, 2 de maio de 2024

Riacho Anil

para tudo
ninguém passa aqui além das minhas águas
vocês sentirão meu odor bem de perto
ninguém passa aqui além do fluxo da enchente
gente não passa de carro, nem de moto
gente
talvez a nado
mas que nada
sei que vocês têm nojo de mim

ri
acho 

porque sempre haverá quem me atravesse
quem adentre nas minhas águas

nossas águas
pois eu sou vocês, cidade
verão chuvoso vem relembrar

domingo, 21 de abril de 2024

Maiobinha

Maiobinha, 

Neste dia de Sol penso e vejo, do leito do teu rio, cercada de tua mata de juçara, como tuas águas só gostariam de ser a pureza e a fluidez das fontes de onde vens. Que gostarias de banhar peles e animar brincadeiras n'água. Que achas aquelas retroescavadeiras barulhentas e violentas, elas que abrem tuas margens para não alagar - tanto - a estrada de Ribamar em dias e noites de chuvas torrenciais. Quando passo por ti escuto uma voz; por isso quis chegar mais perto e fazer/trazer uma imagem.

sábado, 13 de abril de 2024

trocou de pele
incômodo, esforço
fraqueza,  desconforto
falta força para sambar
para escalar paredes urbanas
muralhas intransponíveis
e tantas que de tornam transponíveis
falta força para dançar o tambor
é preciso buscá-la nas entranhas da terra
prenhe se sonhos recebidos de todos os batuques
apara curar uma doença 
que só o tempo contaminado pelo capital
poderia fazer tão cruel e insensível
aquela rede de eletricidade 
que cai por cima dos nossos corpos
não mata, mas nos transpassa


terça-feira, 9 de abril de 2024

expor a dor

com um alfinete singelo
drapear as vestes
para expor a dor
mostrar a peste
a lágrima e o sangue 
incontestes
de que adianta
o nó na garganta
ou palavras estéreis




sábado, 16 de março de 2024

Rio São João

Rio São João
pista ponte estreita
Rio transborda
chuvoso verão

transborda a lembrança
de quando ali banhávamos 
antes que passasse
cabos de alta tensão 

verde nublado
por onde escorrem todas as águas
dali, rumo ao baixão 

Rio ri de nós
na alagação
no tempo parado

engarrafamento na estrada
de Ribamar

Rio abaixo do asfalto traz
mensagem da inundação


quinta-feira, 7 de março de 2024

na casa à venda
há tanto tempo
à venda
abandonada
a tenda
de quem não tem teto

o primeiro que se levou
o telhado
levado ao sopro de quem precisa dele
telha por telha
portas e janelas
madeiras aproveitáveis

casa construída por tantos anos
a fio
um sonho materializado
em ruína
tão rápido
matéria de desprendimento

quarta-feira, 6 de março de 2024

lastro

eu estarei te aguardando na superfície
não abrirei os olhos debaixo d'água

conforme tu me ensinaste
tudo será impresso conforme a vontade enviada

com aquele fundo que me toca
os pés submersos
no frio da correnteza

um ato nunca é só um ato

lança dados, dardos, fardos, laços

fornecem o lastro para se manter em equilíbrio

ainda que entre um estado e outro
se caia de novo num outro mesmo vacilo

domingo, 25 de fevereiro de 2024

peixes mágicos

a casa lembra uma igreja
um velho cuida de crianças
e lá contém ritos iniciados por epígrafes

peixes mágicos passam sob nossos pés
num chão transparente

não são peixes de comer
são feitos d'água

uma enganação de monstros safos
para quem quiser mergulhar n'outros mundos

peixes luminosos
vêm das profundezas dos oceanos
onde também habitam peixes monstruosos

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

tirei um fino

tirei um fino
de uma moto à direita
debaixo do viaduto
carro invasor de macho opressor
de uma mãe com um bebê
na calçada estreita que virou rua
transbordou
vamos percorrendo sustos
e quase mortes 
indo rápido pela direita
à esquerda alguém curte a paisagem
voos de guarás no mangue
estava com pressa demais para ser triscado pela lentidão
ultrapasso pela esquerda 
que está aberta às possibilidades de fuga


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

re cap tu lar

mangueira podada
corre vento abaixo dela
e a luz adentra
mais confiante de sua missão

galhos pesam tanto
 de tão sobrecarregados
nem parecem com a doçura
que carregam em suas pontas

uma poda é suficiente 
por ora
não se apeguem aos frutos
quem nem tiveram a chance
de amadurecer

talvez caíssem
com a força implacável 
de um vendaval
em chuva violenta de verão

domingo, 21 de janeiro de 2024

rasteira

o que eu perdi
já se foi
junto com a onda do mar
as miçangas awá guajá
naquilo que deixou de ser
na porta que se fechou
no limite do horário
do eu queria ter visto

não me arrependo
mas sinto um tanto
nenhum imprevisto
é mesmo um tanto 
desconcertante
levar rasteira de si




sábado, 20 de janeiro de 2024

come pulando

a beleza do urubu
secando as asas ao Sol
no topo do poste 
nas árvores molhadas
no toco da cerca
no lixo avolumado

come pulando, voa, briga
depois da chuva se arrisca
desafia nosso olho 
a ver beleza na sua soberania

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

veredas

não há estranhamento que resista 
ao longo caminho percorrido
tantas vezes escorrido
no vem e vai das veredas
esburacadas e com curvas íngremes
que nos levam até nosso querer

o que parecia tão longe
vem ficando bem pertinho
a volta que é sempre mais curta
ainda que feita devagarinho

já vimos aquela palmeira sorrindo
antes de vir 
ver 
de novo
nosso inconsútil regresso ao ninho

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Aguadeiro

antes mesmo de chover
das profundezas da terra
brotam os tajás de todos os tipos

antes do ano findar 
o axixá tinge de vermelho 
o céu azul sem nuvens

cai no chão suas flores secas
que assumem todas as formas
olhos, sonhos, borboletas

reino vegetal que implora
para prosperar nas sementes
que caem no chão seco

um futuro aguadeiro

antes da primeira chuva
dezembro nubla todas as manhãs
pincela a correria de fim de ano
na melancolia do fim do mundo

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

prazer

sem aditivos
nem impulsionadores
nem desvios, com riscos
nem usurpadores

nada de assaltantes de cronos
muito menos de sequestradores de kairós

a volta plácida 
ao lugar onde nada acontece do nada

sem realçadores de sabor
nem moduladores de humor
menos ainda aqueles desvios frequentes de rota
vai e volta

na marcação invisível
no ar, plana uma gaivota
insano, a quem diria
sem consumo insano, eu diria

insípido, lá longe
se percebe algo
furtivo encontro com seres monstruosos
que nada mais são que abjetas facetas do nosso prazer



Casa de Praia

casa de praia
tem ruídos de ondas nas paredes
e areia que cola na sola dos pés

maresia nas maçanetas
que abrem portas para as profundezas

vai e vem
ultra mar
outras línguas
viagens, malas perdidas
encontros furtivos
desnorteia de norte a sul
de oeste a leste
des sul teia

caímos em conexões improváveis
aversão e atração
que vem de longe
meta a meta no último vagão
mande de volta pro nação da exploração

"que se exploda" 

mas na terra fértil não há separação

quebra mar
e a areia invade a praia
na Ponta d'Areia

história borrada

a caneta é com que escrevo

minha história
com a ponta rachada ao cair no chão
escorre a tinta e tudo borra

já se foram os intrusos 
agora
a água dissolve o que tanto custou elaborar
outrora

e aquilo que não rabisquei
me persegue de forma sonora

esqueci o trocadilho

poemas esquecidos
tem gosto de sonhos não lembrados

não adianta forçar
eles vêm em epifania

ponte

no branco da crista da onda
às duas da tarde
visto de cima da ponte

onde está o verso que se esconde?

o branco cega
visto de cima
sem dó nem escrúpulos
anima

maré cheia
daqui a pouco vaza
aguarda logo a sombra rigorosa
vir puxar o pé

enquanto se dorme
há quem cruze
a Bandeira Tribuzi
e que reze ao cruzar
a do São Francisco

o medo não atrasa
fica sobre aviso
impresso no frio da barriga

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

lençol luto

a tela acende
dela surge uma criança inocente
sendo retirada de escombros

cinza
sem vida
é a paisagem
é o corpo
a medida
a contagem

menos de um mês 
milhares
quase não vemos sangue
das pequeninas
o pó cobre a pele
chega até nos
o matar
o deixar morrer

viver não é rotina em tempos de guerra
digo teu nome em prece
Palestina

todos os lençóis que cobrem tuas peles infantes
encharcam-se das lágrimas de quem pariu
um futuro que não será

sexta-feira, 14 de julho de 2023

flepa

saio de casa para encontrar 
o desencontro que me fez ser

aquela distância singular
de cara com a pluralidade

erros e tropeços
trajetos e trejeitos

analisei de perto 
aquela flepa minúscula 
alojada no canto direito 
das palavras vacilantes pronunciadas

tentei arrancá-la

ficou um pedaço insistente

tenho que me acostumar com ele
até que seja absorvido 
como parte de minha carne

segunda-feira, 5 de junho de 2023

lua avista

lua redonda sobe 
enquadrada pela janela sem grade

antes de sumir pela brecha
conta histórias de todos os povos descalços
que a fitaram de um modo puro
sem intermediários
sem mídias nem destinatários

transferência de ondas luminosas 
de mensagens oraculares
testemunha ocular de todas as eras

é a lua quem nos vê


segunda-feira, 1 de maio de 2023

do miolo de uma dor profunda
lágrimas jorram e inundam a terra
úmido escuro húmus
dor desgaste fissura

é preciso falar dela
de alto auto tom
nem mal nem bom
perspectivas iluminadas pela lâmpada da sala de exame 

enxame de vespas com veneno 
que nos derruba acidentalmente

não há o que fazer
além de fazer o inadiável

só há esse solo agora para cair 
antes que retornemos a ele

há beleza antes da dor profunda

sábado, 25 de março de 2023

planta suspensa

mesmo com tanta chuva caindo do céu
transbordando galerias

fazendo ver rios soterrados e ressentidos 
da ingratidão dos homens que ali bebiam

e ao mesmo tempo incontroláveis
a lograr seu rumo pressentido

mesmo com raios que tremem paredes e carnes
que abalam nossas estruturas 
e assustam o que seriam noites calmas

vento e tempestade
pulverizando gotas 

mesmo com toda umidade
aquelas plantas suspensas na varanda
aguardam nossa boa vontade

de molhá-las como se molha
uma faceta esquecida 
de nossa integridade


sábado, 21 de janeiro de 2023

velar ano novo

não confundir
abundância com desperdício 
ou futilidade

superando o trauma da escassez
sinto-me a vontade para rever que
abundância não é exagero

ao contrário

é contentamento 
e autorresponsabilidade

abundantemente me resguardo
no velar-me que alumia
o instante no qual transbordo

sábado, 31 de dezembro de 2022

por um triz

flor se abre enfiada na folha
rasga em desabrochar

abelhas trabalham 
na colmeia esculpida
na palha do babaçu
prestes a desabar

por um triz

sobrevivemos sem ferroadas 

pra aguardar o rasgo inteirar



sábado, 24 de dezembro de 2022

dê grau

três lances de escada desabaram
e de baixo olhávamos para o topo
pensando naquelas que por lá passaram

e no vôo que faríamos para subir
sem degrau, sem asa, sem motor

o movimento é de dor
dos músculos enrijecidos

mas o alcance é de outro sabor

no impulso escondido
o prazer do desconhecido

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

profecias infantis

tudo começa com a intenção
de dar uma flor colhida no jardim
e mais uma
e mais uma
até um balaio colorido se formar
servindo-nos de abrigo

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

atrás do arbusto

corro no campo aberto
sorriso de criança ambienta o espaço

onça esturra
corro, paro

pausa pra repousar
porque demanda não para

estado alerta cansa, para

sorriso de criança paira no ar delgado

pausa no movimento 
escondido atrás do arbusto